Informações não pedidas e tão pouco necessárias

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Alicate

Hoje decidi não ter medo e conversar com os fantasmas. Eles às vezes são simpáticos. Na verdade são mais simpáticos que os vivos, já que os vivos querem viver. Já os fantasmas não tem nada pra fazer, então podem ficar conversando comigo, sem se cansar, sem se entediar, sem querer ir embora.
No começo foi engraçado porque eles pensaram que eu não iria querer conversa, mas, oras! Se não for com os mortos, com quem falarei? Os vivos estão ocupados.
Ah! Os fantasmas são tão engraçados! Riem quando conto das coisas do mundo, não se lembram mais, então querem ouvir e tentar entender. Eles, entretanto, só falam deles mesmos, de quem são, quem realmente são, e do espaço que ocupam. Podem imaginar um ser vivo fazendo isso? Eu não. Afinal eles nem sabem quem são, como falar disso?
Os fantasmas gostam de mim, dizem que me pareço com eles, mas não sei quem sou e não posso falar disso, por isso falo do mundo.
Acho que todos deveriam conversar um pouco com um fantasma, mas cuidado! O preço é alto, e você nunca mais será o mesmo. E o desejo de se juntar a eles e deixar tudo isso aqui pra trás só aumenta com o tempo, até ficar insuportável. Mas quando todos os vivos se foram e você está sozinho e desesperado, acaba fazendo qualquer coisa e suportando qualquer sofrimento por um pouco de companhia.
Os vivos, vivem. Os mortos se entendem.